Trem, ator pornô e a primeira noite de um fotógrafo

København – 08 de Janeiro

Foi assim: cada um pro seu canto, fazendo o que desse na telha. Primeiro dia do Neto e o Gui na Dinamarca e a ansiedade tomava conta de todos – afinal, é muita coisa pra ver!

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Bêbados no metrô de Copenhagen
Bêbados no metrô de Copenhagen

O Gui fala um inglês meio tenso, então lá fui eu levá-lo a Copenhagen. Conseguimos nos locomover rápido e eu toda orgulhosa por já me sentir uma expert no assunto “transporte público dinamarquês”. Tão expert que pegamos o trem de maneira errada e fomos expulsos na primeira estação.

Okay, okay, esperamos mais 10 minutos congelando pelo próximo trem. Chateados com a triste história dos vôos atrasados, das malas extraviadas e pelo mal entendido do trem, eis que um de nós questiona “nada está tão ruim que não possa piorar”…
… e como um passe de mágica, entram dois bêbados no trem, um deles carregando uma garrafa de alguma bebida barata qualquer e um carrinho de bebê (largou o bebê lá, na área própria para os carrinhos, mas junto aos pais) e o outro com uma lata de cerveja. Vieram em nossa direção. Eu suplicava internamente que eles não sentassem conosco, que ficassem perto do grupo de mocinhas árabes.

Merda, sentaram conosco.

Os sujeitos fediam tanto e eu falava em português com o Gui que meu estômago já não suportava mais o cheiro e a presença daqueles doidos escandalosos. O Gui ficava admirado, pois o cara do meu lado tinha uma tatuagem no rosto. Enquanto isso esse cara reclamava com o outro que fedia pois estava há dois dias trabalhando por 16hrs seguidas sem banho. Tava tudo explicado, o que nos deixava mais triste.

Todos no vagão em um silêncio constrangedor acompanhando a algazarra daqueles dois trabalhadores que não paravam de brindar por qualquer motivo bobo. O bêbado hustler (mais tarde entenderão) vai ao carrinho do bebê e volta com uma pequena mala e joga em cima do Gui, pedindo para que ele desse espaço pois carregava um material especial: bebidas. Entreolhamos, é agora que vamos presos.

Meu Deus, Jesus, Maria José, pra nossa falta de sorte, certamente aqueles aloprados iriam descer na última estação.

Curioso com o nosso diálogo, o bêbado hustler começa a vomitar um francês conosco, jurando que estávamos falando aquela língua e ele querendo nos mostrar que era metade canadense. Explicamos que éramos do Brasil e a partir de então o hustler virou nosso melhor amigo…

– Você é corajoso em deixar seu bebê dentro do carrinho no outro vagão sozinho!
– Ah, aquilo não é meu bebê, são bebidas pra eu festejar 24hrs!

Falava sobre o Rio e gritava em alto e bom som o quanto o Brasil era legal – droga, quantas vezes vou dizer que os dinamarqueses só conhecem o Rio? – e o bêbado da cerveja tentava entrosar.

– Nossa, português é uma língua muito legal…
– É sim, senhor
– É verdade que você pode fumar crack pelas ruas de Portugal?
– Sei não moço, a gente é do Brasil…
– Mas o Brasil não fica em Portugal?
-…

Enquanto isso o bêbado hustler defendeu o Brasil, falou da Copa, contou que era Sueco e nessa hora já estava trocando juras de amor pela língua portuguesa.

– Temos um projeto de fotografia, podemos tirar uma foto sua?
– Claro! Sou bem familiar com câmeras, já fiz muito DOG MOVIE na Suécia…
– O que é um Dog Movie?
– Ah, é filme pornô. Sou um ator pornô, sou porn, sou hustler.

Enquanto eu e o Gui batíamos palmas e as lágrimas caiam de tanta gargalhada, as mocinhas árabes já não conseguiam conter a insatisfação diante de tudo aquilo… Pouco tempo depois, nossos amigos bêbados partiam do trem e deixavam de presente uma caixa de vinhos pra gente ser hustler como eles.

(abrindo um parênteses para nossos pais: não, não aceitamos a bebida, jogamos fora e não bebemos, ok?)

Gui recebeu o melhor velkommen que Copenhagen poderia oferecer.

Assim seguimos pelas ruas na tarde escura de Copenhagen, comemos o melhor sanduíche do mundo no Delle Valle e encontramos mais tarde com o Marco em um bar aconchegante chamado Retro.

Como se a noite não pudesse ser mais agradável, o bar tinha um clima aconchegante e garçons que trabalham como voluntários naquele lugar, tinha a cerveja mais barata e comida mexicana mais apetitosa.

Terminamos a noite tocando violão, jogando totó e dois brasileiros que se dizem nascidos na terra do futebol perdendo para o italiano que nasceu na fronteira com a Áustria. Acho que o Marco tem mais afinidade com sua raiz metade Mussolini metade Hitler que eu Atleticana e o Gui Cruzeirense.

Assim, voltando de madrugada felizes e cansados pra casa, eis que um reformula o questionamento anterior: “Nada está tão bom que não possa melhorar”.

Velkommen, garotos.

#Camila

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