Uma história de Reveillon na Dinamarca

Você pode não saber, mas eu já fui à Dinamarca antes. Fiquei lá por quarenta dias e entrei literalmente em algumas frias (-20ºC). Uma delas é a que vou contar abaixo.

Um amigo também já ido tinha àquele país, e lá ele realizou uma pesquisa da mais alta envergadura moral: parava nas esquinas e perguntava a toda mulher que passava se ela queria transar. A quarta sempre respondia que sim. A cada 10 mulheres que você chama pra transar em Copenhagen 2,5 aceitam na hora. E a cada 10 mulheres perguntadas se querem transar 0,8 te enchem de porrada. De acordo com ele, vale a pena. Mesmo sendo solteiro na época, decidi não testar por medo de ser preso.

Copenhagen
Copenhagen

Passava meus dias na Bodega (sim, era esse o nome), um bar ao lado do hotel. A dona era uma velha que vivia me enchendo a cara de schnapps, de graça. Queria que eu experimentasse todas as bebidas da Dinamarca, mas só me dava schnapps. Eu insistia na Tuborg. Os frequentadores eram os sempre frequentes e mesmos velhos de sempre. Por 40 dias eu vi os mesmos velhos de sempre gritando e brigando em Dinamarquês. Eu ficava no canto do balcão só observando.

Lá, no inverno, o sol nasce nove da manhã e vai embora duas da tarde. Quer dizer, a luz nasce 9 da manhã. Chamar aquilo de sol é falta de respeito com a estrela. Fiquei minimamente surpreso quando me falaram que o país apresenta a maior taxa de suicídio do mundo (informação a confirmar).

Era dezembro e no dia 31 desse mês fui procurar um lugar para passar a virada. Resolvi matar a saudade do Brasil, ou pelo menos da América Latina. Encontrei uma casa de shows chamada Mambo Bass Dancing Club ou algo do tipo, não vou me lembrar do nome agora. Latin Music.

Entrei e ainda tinha pouca gente. A maioria feia. Um pouquinho de música latina, algumas Tuborgs, mais schnapps, e pronto. A bebida entra e a capacidade de discernimento sai. As pessoas ficam bonitas e jovens.

Depois de um tempo lá dentro descobri que a boate era focada em um público que estava na flor da murxidade. Gente quase na terceira idade. Eu, com 19, sobrava. Fiquei tomando cerveja até umas 2 da manhã, quando apareceu uma mulher lá querendo me pegar. Peguei. Ela tinha 51 e uma filha casada com brasileiro e acho que me pegou por causa disso. Me contentei com essa velha até umas 2 da manhã, quando descobri que tinha outro ambiente na boate só para jovens, tocando música eletrônica (não agüentava mais salsa e merengue) e dando cerveja de graça. Amaldiçoei os deuses por não terem me feito perceber isso antes, larguei a velha com dificuldade e fui para o tal ambiente. Lá Conheci um cara de Belo Horizonte (minirim igualêu) e um outro do Camarões que tinha jogado na seleção do Camarões contra o Brasil na Copa de 94. Fomos para o ambiente jovem.

Eu ia no banheiro e não podia usá-los porque as mulheres ou estavam usando os mictórios do banheiro masculino para urinar (sentadas em cima) ou estavam no espelho comparando os peitos umas com as outras. Eu achava aquilo ótimo pelo menos até umas quatro horas da manhã, quando já estava realmente apertado e tive que entrar na fila de mulheres pra usar o mictório. Mas antes disso passei algum tempo lá dentro, apreciando aquela cena.

Não peguei ninguém mas tomei muita cerveja (de graça até ônibus errado). Ficamos lá até umas 6. Me despedi do mineiro e do camaronense (que desapareceu no escuro quando apagaram as luzes). Voltei para as velhas, afinal, tinha obtido mais sucesso lá.

A velha de 51 tinha ido embora mas apareceu uma de pelo menos 65 que queria a qualquer custo dançar salsa comigo. Quem me conhece sabe: como dançarino tenho a desenvoltura de uma passista alemã. Mas como a boate já não tinha mais muita gente, resolvi realizar o sonho da senhora. Nem sabia e nem sei o que é salsa, mas lembrei de meus primos dançando forró e pensei “música latina é tudo igual. Você vai dando umas encoxadas no parceiro e pronto”. Dei umas encoxadas nela e não demorou para ela começar a falar pra mim “nossa! Você tem sangue latino correndo nas veias”. Só sei que saí de lá com o apelido de TDA, o terror dos asilos.

Às 10 da manhã eu já não estava muito legal. Tava pra lá de marrakesh. Falei que ia embora e a velha falou que vinha junto. Eu disse que não e ela disse que sim. Fomos para um bar ao lado da estação central de metrô principalmente porque ela falava que ia me seguir onde eu fosse e eu não queria que uma pessoa assim descobrisse onde eu morava. Um pessoal mais novo me chamou pra sentar e eu sentei com a velha. Dois minutos e ela falou “vou ao banheiro” e no momento que ela saiu eu já falei pro pessoal “tô devendo quanto?” e eles “não tá devendo nada”. Joguei 100 Kroner (30 reais) na mesa mesmo assim e parti para o metrô.

Mal sentei e dormi no banco do trem. Acordei lá na puta que o pariu e o cenário que antes era completamente urbano tinha se transformado em uma paisagem rural e bucólica, aparentemente longe da civilização. Neve e árvores. Pinheiros. Tudo igualzinho. Olhei pra frente e tinha um sujeito escornado ali. Tentei falar algo em inglês, pedir informação, mas o sujeito parecia morto. Isso era primeiro de janeiro uma hora da tarde e o vagão estava deserto.

Desci na primeira parada por medo de ir mais longe e pedi informação numa padaria. O atendente não falava inglês. Abordei um casal de velhinhos mas eles correram por medo de que eu fosse muçulmano (por causa da barba, provavelmente). Muçulmano lá na Dinamarca não é bom sinal, principalmente numa cidade deserta no 1º de janeiro. Por fim, encontrei uma moça lendo um livro e, como todas as pessoas jovens do país, ela falava inglês.

Dessa vez, no metrô, voltei em pé para não correr o risco de dormir, além de entrar no trem sem bilhete porque não tinha mais um tostão. Maldita mania de brasileiro de deixar dinheiro em mesa mesmo o com as pessoas falando que não precisa. Cheguei em casa sem grana, cansado e com fome. Duas horas da tarde. Apaguei.

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