O Começo, o fim e o Google

Um dia resolvi viajar, talvez seja esse um dos meus poucos hobbies – juntando-se à arte de comer, ler, ver filme, ouvir música-, e decidi da noite pro dia.

Meses depois sentei num bar com o Gui e o Neto, achei a viagem deles mais atraente que a minha para NY. No outro dia havia largado tudo para trás e já ligava para os garotos informando que eu era a terceira integrante do Dois na Trip.

Dentro do trem, indo para Luleå
Dentro do trem, indo para Luleå

Quando viajamos, costumamos planejar, analisar, perguntar pessoas e passamos horas a fio no Google. Mas o Google responde quase tudo, menos o que fazer e como proceder quando coisas importantes dão errado.

Imprevistos aconteceram desde o começo da viagem: não consegui ir no mesmo vôo que os meninos, parti uma semana antes (para minha sorte!). Reservamos hotel nas Ilhas Faroe, não conseguimos passagem de avião – esquecemos de cancelar a reserva, já que foi feita com tantos meses de antecedência, e vamos pagar uma multa gorda por no show. O vôo do Neto e do Gui não só atrasou na hora de partir, como perderam dois dias de viagem e malas extraviadas. Neve? Frio? Inverno mais quente na Dinamarca nos últimos anos… Poderia ter coisa pior? Claro: não poder presenciar o motivo que nos trouxe até aqui.

Quando falaram de “caçar” a Aurora Boreal, imaginávamos uma aventura dessas de filme infantil, sem muitos dramas e muita alegria com essa turminha que sempre apronta uma confusão.

Não esperávamos imprevistos severos, nem mudança brusca de clima, nem mesmo ficar presos em uma cidade no meio do nada, não esperávamos lágrimas. Na verdade, esperava que no meu rosto rolassem gotinhas emoção, não as de agonia e desespero.

Depois de dois dias parados em Lulea, com cancelamento de trem previsto para pelo menos o dia seguinte, passamos a noite em claro sem saber o que fazer.

A gente tinha que dar um jeito nisso.

Três horas de telefonemas, interurbanos, ligações internacionais. Não tínhamos direitos de reclamar com qualquer órgão público sueco, pois sendo estrangeiros e não pagando impostos naquele país, nada poderia ser feito para nos ajudar. MAS A GENTE TINHA QUE CONTINUAR ESSA VIAGEM, SEJA COMO FOSSE.

“I’m lost in the world”, vinha o refrão de uma música do Kanye West e Bon Iver na minha cabeça. Estávamos tão perdidos assim? Dondeuvim? Brasil. Proconvou? Onde desse pra ir.

Espera, é isso! Eu vim do Brasil, não estou perdida! Apelei para a Embaixada Brasileira na Suécia. E assim como toda mãe que nunca abandona o filho, fomos amparados com um breve mas importante contato. Ufa! Vamos sair de Lulea!

Ainda não foi Tromsø, outro país, a situação do clima só piora. Vamos para Kiruna, a Lapônia sueca, famosa por também ter – embora com menos incidência – nossa namoradinha platônica.

Três semanas à base de sanduíche e MARBA (marbarato que tiver), feridas nas mãos, na boca, pele descascando, ganho de peso. É visível em nosso corpo e mente que estamos diferentes.

Malditos imprevistos…
malditos…
benditos… benditos?! BENDITOS!
Afinal, se não fossem eles, onde estaria a emoção dessa aventura? Seríamos apenas historinhas insossas da sessão da tarde e não um blockbuster do cinema.

Por sorte, tem um Thor sentado ao meu lado, fazendo a viagem ficar menos tediosa e entre ficar delirando com a beleza desse Deus Viking ao lado e a da natureza lá fora, ainda consigo pensar em tudo o que aconteceu até esse momento.

Bom, agora estamos no ônibus seguindo para uma cidade a -41˚C, sem saber o que podemos esperar.

E logo quando a gente achava que tudo estava perdido e havíamos chegado ao fim, nossa aventura só começou…

E aí Google, você sabe me dizer o que vai acontecer?

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